
Pessoal das corridas dia 02/05/2010 participei da minha 4ª
“marvada”, mais conhecida como 16ª edição da maratona de São Paulo, na capital paulista. As inscrições eram feitas pelo site
www.maratonadesaopaulo.com.br, com opção de participação de 10km, 25km e a “marvada”, com últimas taxas de R$ 50,00; R$ 60,00 e R$ 65,00, respectivamente, e limitada a 8.000; 2.000 atletas e 5.000 atletas, também respectivamente. A entrega do chip e numeral foi no Ginásio Poliesportivo do Ibirapuera, Rua Abílio Soares, 1300, ao lado do Parque Ibirapuera, dias 29 e 30/04 das 12:00 às 20:00 e no dia 01/05 das 08:00 as 16:00. A premiação era de primeira linha: 1° R$ 18.000,00; 2° R$ 8.000,00; 3° R$ 6.000,00; 4° R$ 5.000,00; 5° R$ 3.000,00; 6° R$ 1.800,00; 7° R$ 1.500,00; 8° R$ 1.300,00; 9° R$ 1.200,00; 10° R$ 1.000,00. Havia também um bônus para o vencedor da prova que terminasse abaixo de 2h:11m:18s à R$ 20.000,00; 2h:13m:00s à R$ 10.000,00 e 2h:15m:00s à R$ 5.000,00. Esse foi o intróito de mais uma maratona, digo mais uma
“marvada”, e olha que essa foi muita
“marvada”, aliás a mais
“marvada” de todas.
Na virada do ano tinha a expectativa de participar da maratona de Porto Alegre, entretanto o transcorrer dos meses, diversas coisa legais aconteceram e como a lei da física (que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar) também se aplica na vida desse portuguesinho, dentre essas diversas coisas excelentes, infelizmente a parte física (não que eu tenha assim... um físico) ficou bastante prejudicada. Nesses últimos 60 dias, fora as corridas, foi somente um treino: 20km na USP, num dos raros sábados livres.
Assim a maratona de Porto Alegre se mostrou um sonho irrealizável. Desse modo, mais racional, optei em passar vergonha em terras mais próximas. No mínimo chegaria mais cedo em casa.
As últimas provas deixaram claro que o descondicionamente era cada vez mais evidente. A alimentação já estava menos regrada e o corpo a cada corrida ficava reclamando mais e mais. Ganhei alguns poucos quilos que, milagrosamente, se esvaíram no final de semana passado, com a sofrida meia maratona de Santo André. Terminada a prova andreense e depois de me alimentar e hidratar, a balança acusava 64,5kg contra 67,4kg do dia anterior. Esse peso se manteve durante toda semana, sem qualquer mudança alimentar. Para um
“frango” era muita coisa, acho que mais de 5% de perda.
Pois bem, arrumei todos os apetrechos na noite anterior. Nas últimas maratonas, as tralhas estavam prontas com uma semana de antecedência. Acho até que, no meu íntimo, torcia para que algo ocorresse para ter mais uma desculpa para não me meter nessa enrascada. Separei dois pacotes com 2 sachês de gel, um gatorade, um pacote de sal (de restaurante), isso para cada uma das duas sacolas. Um dilatador nasal e um garrafão de água me acompanharam também. Utilizei todos o presente de corredor Antonio, que me enviou de sua participação na maratona de Sevillha: calção, camiseta e boné. Infelizmente, meu caro Antonio, não honrei seu brinde. Fica para próxima colega “tuga”.
Retirei o kit de largada, que continha um jogo de dilatador nasal, um pacote de café, um sachê de capuccino, uma pastilha de SUUM (esquisito o troço!) e uma infinidade de panfletos de propagandas de todos os tipos (acho que não esqueci nada...). Agora, o cartaz "PISA FUNDO" foi
hors concours. Levei para casa só de sarro. A camiseta com marca da Adidas, só que azul clara, a pior cor de camiseta. Esse pessoal do
“marquetingui” não deve fazer uma prospecção básica de opinião com os participantes de corridas pedestres. Também recebemos uma outra camiseta para incentivar doações de sangue. Muito legal. A retirada do numeral e chip foi muito tranqüila, penso que até demais. Não teve aquela quantidade de pessoas circulando como nos anos anteriores.
Cheguei razoavelmente cedo, mas tive que deixar a viatura bem distante, para evitar o assédio dos "flanelinhas". Infelizmente esse ano não tive apoio de uma equipe, com a desestrutração da Playteam. Nessas horas que você percebe como é bom estar em grupo, tudo fica mais fácil (ou menos difícil em se tratando de uma maratona). Assim logo, logo estarei engajado em outro grupo, caso não tenhamos mais a reabilitação da PlayTeam. Consegui encontrar o local da tenda da equipe Corre Brasil do prof. Augusto, que já citei em postagens anteriores. Lá guardei minhas coisas e troquei de roupa e vesti o uniforme de Sevilha, cor verde limão. Deixei com uma colega os dois pacotes de gatorade e saches de gel: um para 23km e outro para 33km. Ali ela já estaria para dar apoio a outros colegas. Desse modo correria mais tranqüilo, sem
“peso” adicional. Também estava ajustado uma companhia do 21km até o final. Tudo combinado!
Nesse ínterim me alertam que às 08:00 sairia a última leva de ônibus para a largada. Eram 07:50. Cumprimentei os colegas Marcão e Sidney, dentre tantos e fui embora. Na fila encontro com Diego, atleta de triátlon super gente boa, acompanhado de sua noiva (quase esposa dia 31/07/2010, domingo, casório com churrascada. Todos os corredores de São Paulo estão convidados). Mariana ficou como apoio do noivo, assim se despediu na porta do ônibus. Chegamos a avenida Roberto Marinho e fomos em direção ao bloco mais à frente possível.
No caminho encontrei Namiuti, mas como estava bem em cima da hora, fiquei devendo a ele uma atenção que merece. Fica para próxima Namiuti!Percebo no caminho que os numerais brancos (maratonas) são bem raros. Alinhamos eu, Diego e Laércio (figuraça!!!). Dada a largada, às 09:00, num sol de rachar moringa, lá vai o combatente, só com calção, tênis, camiseta e boné (tudo de Sevilha) me acompanhando, num ritmo alucinante de ... 06:30 no primeiro quilômetro. Como falei tem que largar muuuuito lá na frente, mas como “tempo” não era a meta final, e sim chegar razoavelmente inteiro, até que não piorou a situação. O problema também é que largaram, todos juntos, o pessoal do 42km, 21km e 10km e sem separação de baias. ACHO EU que como o quórum da maratona não foi lá essas coisas, o pessoal dos 10km e 25km "engordaram" o público para sair na "telinha" da Globo. Assim, com esse amontoado de corredores tão diferentes, houve certo tumulto na saída. Eu estava me sentindo bem, com o ritmo lento. Os únicos incômodos do começo foram os túneis, pois no interior estava bem abafado e pesado. Ao sair o ar ficava mais leve e fresco. Do mesmo modo também não era nada desafiador pelo menos por enquanto.
O script era de 15km a 5:30/km, mais 15km a 06:00/km e depois... vamos ver como fica. Os primeiros 10km foram em 58m. O 21km foi em 1h:55m. Ou seja, tudo muito além do esperado. Empolguei para primeiro sub 4h! Mas como alegria desse portuguesinho sempre dura muito pouco, o imponderável começou a se manifestar. Antes dos 21km tirei a camiseta, posto que o calor estava de derreter os cabelos e fiquei a procurar meu “coelho” da metade final da prova e... nada. Como estava me sentindo um queniano, no momento não achei que fosse prejuízo. Adentrei a USP e procuro meu
staff com os sachês de gel e isotônico e ... nada. Aí comecei a me preocupar.
Não tinha um sache de gel, um sal,
nem mesmo uma bala Juquinha tinha comigo. Temi pelo pior. Ao meu lado um corredor “apagou” andando. Amparado pelos demais, a única coisa que consegue balbuciar é de que quer continuar. A cena mexe com qualquer um. Dentro na USP mais corredores dão sinal que foram alvejados pela
“marvada”. Não tem jeito, a “marvada” não perdoa. A subida da avenida Politécnica se torna uma barreira imensa a ser vencida, e isso era no 25km, onde houve um esvaziamento significativo de corredores no asfalto. Ou tinha muita gente para correr os 25km, ou era pessoal da maratona que estava “abortando” a missão de combate. Ou os dois...
Foi uma prova “War of Territory”, do nossos roqueiros brazucas “Sepultura”. Cada metro foi uma disputa do "balacobaco".Nova entrada na USP, cruzei o 33km e também nada de meu apoio.
Correr os 42km “puro” só com apoio da organização não era bem meu plano de vôo. E foi assim que se deu. Os joelhos começaram a arder e a sola dos pés começaram a incomodar, parecia que havia areia no tênis. O estrago só percebi no fim com a retirada dos tênis: pés sangrando e com bolhas estouradas, mas, pelo menos nesse ano, as unhas vão ficar nos dedos. Ano passado perdi 3 unhas na maratona. Já é uma evolução nadaiseana. No meio da prova lembro que os copos de isotônicos eram enchidos na velocidade menor que os corredores chegavam, logo uma fila de dois ou tres corredores se formavam normalmente, ou desistia de se hidratar. Imagino que quem veio mais atrás, penou. Devem ter sofrido muito. Saindo da USP encontramos uma anjos da guarda que disponibilizaram pedaços de melancia e mixirica. Carreguei em frutas em todos os apoadores. Não passei um em branco.
Esse foi meu único alimento nos últimos 36km! Estava com uma fome tremenda...
Antes, na marca de 32km, verifiquei o cronômetro: 3h:00m cravados. Assim o sonho de um dia chegar em 4h:00m se desfez como fumaça. Se bem que meu objetivo era não passar das 4h:30, pela falta de treino e condicionamento do corpo. Com a falta de apoio aí tudo que veio foi lucro. As virilhas também começaram a arder, pelo fato de ter esquecido passar a vaselina. Não dava para piorar mais. A entrada e saída dos túneis era um desafio danado. Perto dos 40km tive início de náuseas e os joelhos começaram a queimar. Assim foi anda, trota, anda, trota até quase o final. Cruzando a marca de 41km tive comigo que iria trotando e nada de andar. Foi bem difícil, confesso. Cruzei a linha de chegada com 4h:18m, no oficial 4h:17m:52s, ou seja,
percorri os últimos 10km em 1h:18m, minha melhor marca pessoal de lerdeza. Essa ficará na história desse corredor pré iniciante. Pela primeira vez cruzei a linha da maratona de São Paulo sozinho, nenhum colega... Um grupo de corrida faz falta nessas horas...
Durante o último quilômetro acompanhei (a pulso, como diria o baiano) uma moça que corria toda de preto, num ritmo pouco melhor que o meu. Ao cruzar a linha uns 5 metros a minha frente teve que ser amparada pelos paramédicos e levada de maca.
Parei. Sentei. Pensei. Depois de tudo isso, estar em pé sem ter tido qualquer apoio, ir sem nada, foi uma vitória. Sem ser piegas. Estava tudo (forte calor, falta de preparo físico e nenhum apoio) delineado para ocorrer uma catástrofe comigo. Tirando as dôres de sempre estava até que bem saudável. Tinha tanta partes assadas, que na verdade era “
frango assado”, literalmente. As partes internas dos pés estavam em carne viva, e o peito do pé bem prejudicado. A pele do osso saliente do fêmur, no final da perna direita, estava bem arranhado. Do mesmo jeito que a prova da semana passada, posto que um pé batia no outro, e o tênis de um pé machucava aquele osso do outro pé.
Outra percepção sobre o quórum da maratona foi de que ao chegar
trocamos o chip por 2 sacolas, com conteúdos idênticos. Isso não só para mim, para todos na minha fila. Se não foi pré definido, é porque pouca gente cruzou a linha em maratona. Cada sacola continha 1 torrone, 1 barrinhas de cereal, 1 pão de mel, 1 banana, uma maça. Na barraca ao lado isotônico. A medalha bem feita. Sai do Ibirapuera, tomei um banho, com corpo ardendo de assaduras e vermelhidão do forte calor, e fui para casa de meu irmão tentar outra vitória: final do campeonato paulista de futebol.
Com resultado do Santos Campeão Paulista de 2010. O Santos poderia peder por um gol de diferença. Com três jogadores explusos do Santos, a contenda foi dramática e terminou com a vitória de 3 X 2 para o vice campeão, com direito a eles chutarem uma bola na nossa trave nos minutos finais. Haja coração! Troféu levantado e faixa de campeão no peito junto com a medalha da maratona. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, nas palavras do português Fernando Pessoa. Só temo pelos vários corredores que foram derrubados pela
“marvada” (e o calor que a Globo continua a enfiar “guela a baixo” à todos corredores). Espero que nessa altura estejam todos em suas casas, com mais um “causo” para contar aos amigos. Parabéns a todos os combatentes, dos 42km, dos 25km e 10km. Mais uma maratona se foi. Mais uma boa estória escrita.
Mas ainda não consegui dominar a “marvada”. Quem sabe em julho no Rio de Janeiro. Quem sabe. Até a próxima contenda.